O cenário da saúde suplementar no Brasil está passando por uma transformação profunda. Com o refinamento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), a demanda por terapias especializadas disparou. Em resposta, os Planos de Saúde estão deixando de ser meros intermediários para se tornarem prestadores diretos de serviço, investindo pesado na abertura de clínicas próprias.
Esta movimentação estratégica não é apenas uma resposta ao crescimento do mercado, mas uma manobra inteligente para garantir qualidade assistencial, reduzir custos operacionais e blindar o sistema contra fraudes.
Na última semana, a Care Plus (braço brasileiro da gigante britânica Bupa Global) inaugurou sua primeira unidade especializada em Pinheiros, São Paulo. Com um aporte de R$ 10 milhões, a clínica foca em crianças e adolescentes — um público que representa quase um quarto dos seus 144 mil usuários.
A meta é ambiciosa: expandir para mais cinco unidades “Mindplace Kids” no Rio e em São Paulo até o próximo ano, totalizando um investimento de R$ 50 milhões. Segundo Ricardo Salem, Diretor de Saúde da operadora, a iniciativa visa preencher uma lacuna de mercado: a carência de clínicas realmente capacitadas para o tratamento multidisciplinar.
Um dos grandes motivadores dessa internalização é o combate a irregularidades. Muitos Planos de Saúde têm enfrentado abusos em redes credenciadas, que incluem desde recibos adulterados até cobranças por serviços nunca realizados. Ao gerir a própria clínica, a operadora retoma o controle sobre o faturamento e a veracidade dos atendimentos.
Historicamente, o público jovem (0 a 18 anos) era o que mais equilibrava as contas das operadoras por utilizar menos os serviços. Contudo, esse perfil mudou. Em 2022, a ANS suspendeu o limite de sessões para terapias como psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.
Para os Planos de Saúde, a clínica própria oferece:
A Hapvida já é uma veterana nesse modelo verticalizado. Nos últimos dois anos, inaugurou 42 unidades especializadas, atendendo cerca de 35 mil crianças com um investimento de R$ 159 milhões. Segundo a empresa, o modelo garante previsibilidade e permite oferecer planos mais acessíveis através do ganho de escala.
Já a Amil registrou um salto de 16,5% no número de beneficiários no espectro autista em apenas três anos. Para suportar esse volume, a operadora abriu 12 Núcleos de Apoio à Criança em Neurodesenvolvimento (Nacnes) através de seu braço hospitalar, a Total Care, além de manter uma rede credenciada com mais de 520 prestadores.
O movimento é claro: para os Planos de Saúde, o futuro do tratamento de TEA reside na gestão direta, onde o acolhimento do paciente e a sustentabilidade do negócio caminham lado a lado.
Fonte: O Globo