As injeções para emagrecer viraram uma verdadeira febre global — e não é para menos. Medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, revolucionaram o tratamento da obesidade, promovendo uma eliminação média de até 15% da gordura corporal.
Esses remédios atuam imitando o GLP-1, um hormônio que nosso próprio intestino libera após as refeições. Ele forma um trio poderoso no organismo:
Parece a solução perfeita, certo? Mas a ciência mostra que a conta não fecha para todo mundo. Entre 10% e 30% dos pacientes são considerados “não respondentes” — pessoas que perdem menos de 5% do peso corporal após seis meses de uso na dose máxima. A pergunta que fica é: por que o remédio do momento simplesmente falha para alguns?
A causa mais comum para o “fracasso” da medicação costuma estar na própria rotina. Entre 20% e 60% dos pacientes abandonam o tratamento ainda no primeiro ano. Além disso, o uso em doses abaixo do recomendado ou a interrupção precoce impedem que o remédio alcance seu efeito terapêutico real.
O corpo humano é uma rede complexa. Condições como a resistência à insulina criam uma barreira que impede a ação eficiente da semaglutida.
O sono desregulado também é um grande vilão: noites mal dormidas reduzem a produção natural de GLP-1. Para completar, o uso concomitante de remédios como corticoides ou antidepressivos (psicotrópicos) pode sabotar a perda de peso.
Pesquisas mostram que as mulheres perdem substancialmente mais peso do que os homens com a semaglutida.
Uma revisão gigante com mais de 23 mil pacientes revelou que o perfil de maior sucesso é: jovem, do sexo feminino e sem diabetes. O segredo? O estrogênio. Esse hormônio feminino aumenta a sensibilidade à insulina e estimula a secreção natural do GLP-1.
Nem tudo depende da sua vontade; parte do problema está no seu DNA:
Tratar a obesidade exige entender de onde vem a sua vontade de comer. Nosso corpo é movido por quatro “tipos” de fome diferentes — e a medicação só consegue agir diretamente sobre alguns deles. Se o remédio não focar na causa primária da sua fome, o ponteiro da balança dificilmente vai mexer.
Para quem sente a fome intestinal — aquela necessidade física genuína de nutrientes —, os medicamentos de GLP-1 costumam funcionar muito bem, especialmente se combinados a uma dieta rica em fibras e proteínas.
Porém, quando o problema é a fome emocional, em que se come para aliviar ansiedade, estresse ou depressão, as injeções mostram limitações. Estudos apontam que pessoas com esse perfil quase não veem mudanças significativas no peso, tornando indispensável o apoio da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para tratar a mente, já que a caneta não cura emoções.
Já no caso da fome cerebral, movida por hábitos enraizados, pode ser necessário migrar para agonistas duplos como a tirzepatida (Mounjaro), que atua em dois hormônios digestivos ao mesmo tempo. Por fim, se o obstáculo for a fome de queima lenta — quando a pessoa tem um metabolismo de repouso muito baixo —, a solução não está em outro remédio, mas sim no treino de força e na musculação para acelerar o gasto calórico diário.
O fato de esses medicamentos não funcionarem para todos deixa uma lição clara: a obesidade não é uma condição única, e tratamentos genéricos estão com os dias contados.
O futuro do emagrecimento saudável está na medicina de precisão — cruzar testes genéticos com o estilo de vida de cada paciente para prescrever exatamente o que o corpo dele precisa. Afinal, a melhor medicação sempre será aquela feita sob medida para você.